O Deus do Tarô
Arquetipicamente falando, quem é o Louco no Tarô?
Nos baralhos tradicionais, como o Tarô de Marselha, o Louco, também conhecido como Arcano Zero, costuma ser representado com roupas de bufão, e como o bufão é um trickster, normalmente assumimos que o Louco é Hermes. Mas Hermes também é o Arcano I, o Mago, o deus Hermes sendo desde sempre o padroeiro da magia, associação ainda mais reforçada no período helenístico, quando ele se transformou em Hermes Trismegisto, patrono das artes e ciências herméticas que estão na raiz da Tradição Esotérica Ocidental. Mas cada Arcano do Tarô corresponde a um arquétipo, e se Hermes é o Mago, obviamente não pode ser também o Louco. Então, quem é o Louco?
Arquetipicamente falando, o Louco é Dionísio.
O Deus Louco
Estamos acostumados a pensar em Dionísio ou como o deus beberrão que os romanos conheciam como Baco ou como o deus do desbunde promovido por Zé Celso. Mas ambas as imagens correspondem na melhor das hipóteses a aspectos parciais e na pior a caricaturas desta que é uma das divindades mais complexas da mitologia grega, onde o elemento mais importante não era a associação do deus com o álcool – para o qual nem sequer existia um termo específico na Grécia Antiga. O vinho de Dionísio (que várias evidências sugerem que não era o vinho convencional, mas uma bebida à qual se misturavam diversas plantas enteógenas) era visto como um meio para um fim, e esse fim era tirar a consciência de seu estado ordinário, o que os romanos chamavam de dēlīrāre, desviar, e os gregos descreviam como μανία (manía), de onde derivou a palavra mania. Dionísio era o Deus da Loucura em todos os sentidos do termo: o deus que enlouquecia as pessoas, o padroeiro dos loucos e o Deus Louco.
Associar o Louco a Dionísio preserva todos os significados divinatórios tradicionalmente atribuídos à carta, mas acrescenta algumas camadas adicionais de sentido que enriquecem nossa compreensão do Arcano. Porque o conceito de μανία entre os gregos ia muito além do que a linguagem coloquial considera como “loucura”. Por um lado, abrange também todas as formas de embriaguez e intoxicação. Por outro, designa ainda todas as variantes do êxtase, da paixão ao êxtase místico. Platão, no Íon, chega a descrever a própria inspiração artística como uma forma de μανία. Aliás, o termo grego para inspiração, ἐνθουσιασμός (enthousiasmós), que deu no nosso “entusiasmo”, significa literalmente “ser possuído por um deus”, e agora sabemos que esse deus era Dionísio que, se quisermos fazer jus à riqueza do arquétipo, deve ser considerado como a divindade que rege todos os estados alterados de consciência, positivos ou negativos, espontâneos ou induzidos.
Tudo isso se transfere automaticamente ao Arcano 0, que costuma ser interpretado ainda como puro potencial não realizado. Como diz Stephen A. Hoeller em The Fool’s Pilgrimage – Kabbalistic Meditations on the Tarot:
O Louco ou Carta Zero é, de muitas formas, o mais significativo e poderoso dos Arcanos Maiores, porque simboliza a prístina fonte espiritual e o destino último de todos os poderes e seres manifestados. Ele corresponde ao Alfa e Ômega da manifestação, o Nada de onde todas as coisas procedem e no qual se dissolvem ao final dos éons.
E também esse aspecto reverbera com o deus grego que, como Carl Kerényi mostra em Dionysos: Archetypal Image of Indestructible Life, personifica em última análise a própria vida universal, que os gregos chamavam de Zoë (Ζωή), num estágio anterior a sua fragmentação numa miríade de βῐ́οι (bioi, plural de bios, βῐ́ος), as vidas individuais.
“Anterior” aqui deve ser entendido num sentido tanto lógico quanto cronológico: Zoë continua existindo como a camada mais profunda de nossa psique, o que Jung chamava de inconsciente coletivo ou psique objetiva, ambos nomes pessimamente escolhidos, e que o filósofo pré-socrático grego Anaximandro denominou de Apeiron (Ἂπειρον), o Ilimitado. É evidentemente a mesma realidade fundamental que Stephen Hoeller está descrevendo, e era para dissolver a consciência individual nela, mesmo que temporariamente, que os seguidores de Dionísio buscavam todas as formas de alteração da consciência – o espectro no interior do qual move-se o Louco, que Arthur E. Waite, co-criador de um dos Tarôs mais usados em todo o mundo, o Waite-Smith, descreve como “the Soul in search of experience”.
Il Matto vs the Fool
A relação arquetípica entre o Louco e Dionísio foi parcialmente obscurecida pelo fato de que, embora o reconhecimento do valor esotérico do Tarô, nos séculos XVIII e XIX, tenha começado com os franceses, especialmente Antoine Court de Gébelin e Éliphas Lévi, a tradição do Tarô tomou forma mesmo nos países de língua inglesa, de onde se originou boa parte do lore atualmente associado às cartas. E em inglês, o Arcano 0 é conhecido como The Fool, que se traduz mais como bobo, tolo, simplório, do que propriamente como louco.
Fool, porém, vem do francês arcaico fol (francês moderno fou), que quer dizer louco, insano, e não bobo. E o título original do Arcano em francês era Le Mat, que remete diretamente ao nome que a carta recebeu nos baralhos italianos mais antigos, Il Matto, que não só quer dizer louco como, ainda por cima, se origina do latim mattus… bêbado, intoxicado, exatamente o adjetivo que os romanos usavam para descrever seu Dionísio-Baco.

Falamos dos Tarôs italianos mais antigos, e neles podemos encontrar evidências adicionais de que era Dionísio que os criadores do Tarô tinham em mente ao desenhar Il Matto. A essas alturas, não deve surpreender ninguém descobrir que nos dois primeiros Tarôs europeus que se conhece, o Visconti-Sforza (1451) e o Sola Busca (1491), o Louco não ostenta o barrete típico do Bobo da Corte medieval, mas uma coroa de folhas que é um dos principais atributos iconográficos de Dionísio, presente desde as representações gregas mais arcaicas até as pinturas renascentistas.
Essa coroa, que reencontraremos no Tarô de forma mais abstrata como a guirlanda que envolve o Arcano XXI, o Mundo, simbolizando o final da Jornada do Louco e seu retorno à Fonte, é uma imagem rica e complexa, que de um lado remete a representações mitológicas como o Green Man e do outro ao simbolismo do topo da cabeça, que é considerado importante em várias tradições esotéricas, como por exemplo a Cabala, onde ele é chamado de Kether (“Coroa”), o Tantra hindu, que o conhece como Sahashara (“o Lótus de Mil-Pétalas”) ou o Budismo Vajrayana, no qual ele é conhecido como Brahmarandra (“a Abertura de Brahman”). É, em linhas gerais, o ponto onde a vida individual, βῐ́ος, se conecta com a Vida Universal, Ζωή. É “a prístina fonte espiritual” de que fala Stephen Hoeller, de onde as consciências individuais se separam no início, e “o destino último de todos os poderes e seres manifestados”, onde eles tornam a se dissolver no final.
E que os gregos chamavam de Dionísio.
O Herói da Jornada
Até onde eu sei, só uma autora contemporânea reconheceu a identidade entre o Louco e Dionísio. Mesmo Sallie Nichols, que em Tarot and the Archetypal Journey (publicado originalmente como Jung and the Tarot, título também da edição brasileira) mergulha em profundidade nas raízes mitológicas de cada carta, deixou de perceber os paralelos entre as duas figuras. Mas em The Mythical Tarot, que saiu no Brasil como O Tarô Mitológico, a astróloga e psicóloga Liz Greene acertadamente atribui o Mago a Hermes e o Louco a Dionísio, sobre o qual ela diz:
Aqui encontramos o herói de nossa jornada, no disfarce do misterioso deus Dionísio, o Duas Vezes Nascido. […] Em um nível interior, Dionísio, o Louco, é uma imagem do misterioso impulso dentro de nós que nos faz saltar no desconhecido. (…) A loucura de Dionísio só parece louca para aquela parte de nós que está presa ao mundo da forma, dos fatos e da ordem lógica. Mas em um sentido mais profundo, não se trata de loucura, pois é o impulso para a mudança que cai “do nada” sobre nós, sem base racional nem um programa de ação pré-planejado. […] Assim, Dionísio, o Louco, representa o impulso irracional para a mudança e a abertura dos horizontes da vida em direção ao desconhecido. (…) Esses impulsos irracionais algumas vezes podem ser destrutivos, algumas vezes criativos, e frequentemente ambas as coisas ao mesmo tempo.
Ao chamar o Louco de “o herói de nossa jornada”, Greene junta-se a uma antiga e venerável tradição que interpreta a sequência dos Arcanos Maiores como uma viagem que o Louco faz através dos demais Arcanos, até chegar a seu destino final que, como mencionamos acima, é ilustrado pelo Arcano XXI, o Mundo.
Alguns autores consideram os Arcanos I-XXI como diferentes forças arquetípicas que o Louco encontra nos sucessivos estágios de sua Jornada. Para outros, esses Arcanos representam formas, aspectos ou disfarces que o próprio Louco adota ao longo do caminho, até reaparecer com sua natureza original restaurada no final do baralho, como o Arcano XXII.
Acredite se quiser, mesmo isso encontra um paralelo na mitologia de Dionísio que, como padroeiro do Teatro, era conhecido como o Deus das Máscaras. A mitologia que envolve o deus mostra-o adotando uma variedade de disfarces e aparências, frequentemente para poder introduzir seu culto, que ele próprio percorria o mundo propagando, nas cidades onde sua presença não era bem-vinda. O mais conhecido desses mitos é a história do rei Penteu, que serviu de base à peça As Bacantes, de Ésquilo, que continua sendo uma de nossas principais fontes de informação sobre o culto a Dionísio.
Reconhecer que o Louco é o Deus das Máscaras e Disfarces necessariamente tem implicações para o modo como compreendemos sua Jornada através do Tarô. Em um determinado nível, os vinte Arcanos Maiores que separam o Louco do Arcano XXI podem ser interpretados como o séquito que acompanha Dionísio em sua viagem pelo mundo. Se quisermos, podemos inclusive aprofundar essa interpretação, identificando cartas específicas às divindades menores que formavam o cortejo de Dionísio, como Pã (o Diabo), Sileno (o Hierofante ou talvez o Eremita) e assim por diante. Mas da mesma forma que alguns mitólogos interpretam essas figuras como diferentes aspectos de Dionísio – Pã seria a forma animal de Dionísio, assim como Sileno seria Dionísio enquanto Velho Sábio –, também podemos ver os Arcanos Maiores como fragmentos ou refrações do Louco, disfarces e formas que ele adota simultânea ou sucessivamente. Em cada um deles vemos uma centelha da Vida Universal, Zoë, buscando se reconectar à Fonte.
Sobre a Grimorium
Este é o primeiro número da Grimorium, uma newsletter sobre esoterismo, magia, cultura, ciência e tudo o mais que passar pela minha cabeça. É também o primeiro de uma sequência de posts explorando várias ideias e conceitos sobre o Tarô que eu venho desenvolvendo ao longo dos últimos quarenta anos. A newsletter é gratuita, mas estou planejando para mais adiante uma série de posts exclusivos para assinantes e mais focados em técnicas meditativas e práticas espirituais, também fruto de quatro décadas estudando esoterismo. Minha intenção, tanto no caso da newsletter quanto dos posts especiais (quando começarem), é tentar manter uma periodicidade semanal, na medida em que a situação caótica do mundo atual não atrapalhar. Espero que gostem e, gostando, divulguem. A família penhorada agradece.





Lúcio, tudo bom? Após três anos encontrei esse texto e análise maravilhosos! Enriqueces-te meu conhecimento. Queria saber se você teria uma bibliografia para compartilhar? Estou fazendo um pre projeto onde vejo as imagens do tarô a partir de simbologias de festas de ruas e uma delas é a festa dionisaca. Adoraria ler mais sobre!
muito elucidativo e estimulante pra quem está estudando o Tarô, entendendo arquétipos ou só despertando. a citação da Liz Greene é especialmente bem-vinda e me remeteu às entregas insanas, surrenders, em Rumi. Na etimologia de surrender, o Louco é um prisioneiro que se entrega de braços pro alto, caminhando na direção do inimigo, dando a ele a razão.